Da Ghama reaviva história de vida e ideologia do reggae em longo CD solo

É impossível dissociar o segundo álbum solo de Da Ghama – BaixÁfrikaBrasil, lançado em edição física em CD neste mês de dezembro de 2016, mas disponível nas plataformas digitais desde 27 de outubro com distribuição da Coqueiro Verde Records – da história e das origens sociais deste cantor, compositor e músico fluminense nascido Paulo Roberto da Rocha Gama em Belford Roxo, um dos municípios da carente Baixada Fluminense (RJ). Foi lá que Da Ghama tomou contato com a ideologia do reggae, sendo um dos fundadores da Lumiar, banda da década de 1980 que daria origem à banda Cidade Negra, da qual Da Ghama foi guitarrista por cerca de 20 anos, até ser convidado a se retirar do grupo em 2008.

Embebido na ideologia consciente do reggae e do rastafarianismo, o álbum BaixÁfrikaBrasil se afina mais com o som da fase inicial do Cidade Negra do que o primeiro álbum solo de Da Ghama, Violas e canções (2008), disco mais voltado para o universo da MPB. Embora soe longo com 18 músicas que totalizam 78 minutos, perdendo eventualmente o foco em faixas como a regravação em ritmo de reggae de Frisson (Tunai e Sérgio Natureza, 1984), BaixaÁfrikaBrasil propaga ideologia social, na cadência do reggae, que reverbera na mente de quem simpatiza com o movimento Rastafári em qualquer parte do Brasil ou do mundo.

“O reggae voa pelo mundo / Nas asas do avião / O reggae viaja / Subindo ao céu, rolando no chão”, enfatiza Da Ghama no refrão de Não basta ser rasta (Fauzi Beydoun e Frazão, 1996), sucesso da banda Tribo de Jah há 20 anos. Sim, neste disco solo, Da Ghama recorre a muito repertório antigo de artistas ligados à mesma ideologia, rebobinando  músicas do Cidade Negra, como Falar a verdade (Da Ghama, Rás Bernardo, Lazão e Bino Farias, 1990), e de bandas como a The Original Reggae Style Band, criada em 1998 no gueto da Vila Guilherme, em São Paulo (SP). Do repertório da Reggae Style Band, Da Ghama dá voz a Estamos em guerra (Apartheid nunca mais) (Douglas Earl, Carlos Crecio e Beto Stheve, 2003).

Da Ghama também reconta História do Brasil (Edson Gomes, 1988) sob a ótica do artista baiano Edson Gomes, símbolo da resistência rasta em Salvador (BA). Da própria lavra, o artista canta músicas como Apartheid não (Da Ghama e Dida Nascimento), ainda necessárias, mas não tão originais quanto Reggae e flores pra vocês mulheres (José Rodrigues, 2007), tema da banda Unidade Punho Forte que se afina com o atual discurso de empoderamento feminino.

Enfim, BaixÁfrikaBrasil é disco coerente com a história de vida de Da Ghama, ele mesmo produtor do disco gravado entre 2013 e este ano de 2016. História que o artista quer manter viva, como explicita em verso de Baixada século XVIII (Da Ghama), música gravada em atmosfera dub. Se exercitar com mais rigor o poder de síntese em um próximo álbum, Da Ghama pode deixar essa história mais compacta e mais interessante para os ouvintes de outras tribos. (Cotação: * * *)

(Crédito da imagem: capa do álbum BaixÁfrikaBrasil, de Da Ghama. Arte de Luiz Stein sobre foto de Carlos Júnior)

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